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seria a obra Doidas e Santas, de Martha Medeiros.

Apesar de não ter me identificado com o resultado do teste “Que livro é você?”, do portal Educar para Crescer, compartilho aqui o link para quem também quer descobrir (e questionar) o veredicto.

E aí, que livro vocês seriam?

(A ilustração ao lado é do jornal espanhol ABC. Linda, né?!)

Edney Silvestre é um mestre na arte de reunir palavras. Suas frases são dotadas de tanta beleza que dá vontade até de saboreá-las em voz alta. Palavra por palavra que, como numa corrente, unem-se formando elos graciosamente entrelaçados. Foi com essas percepções que fechei o romance “Se eu fechar os olhos agora”, após horas de uma leitura extremamente prazerosa.

“Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos. E era assim: grudava nos meus dedos como tinha grudado nos cabelos louros dela, na testa alta, nas sobrancelhas arqueadas e nos cílios negros, nas pálpebras, na face, no pescoço, nos braços, na blusa branca rasgada e nos botões que não tinham sido arrancados, no sutiã cortado ao meio, no seio direito, na ponta do seio direito.”

É dessa maneira que se inicia a saga de dois garotos de 12 anos, Paulo e Eduardo, compelidos a deixar de lado a inocência e a doçura do universo infantil para penetrar no complexo, corrupto e, por vezes, cruel ambiente adulto.

Após serem expulsos da aula, os dois sobem em suas bicicletas e partem para o seu refúgio particular. Trata-se de um lugar afastado, com um lago onde costumam se banhar. Nesse dia, porém, à beira das águas estende-se o cadáver de uma bela mulher. Impressionados com a mutilação de seu corpo e dotados de um espírito a la Hercule Poirot, os amigos decidem então investigar o assassinato.

Considerados suspeitos, os dois têm de lidar com a desconfiança e com a impaciência da polícia, que não demonstra a menor vontade de dar um rumo ao caso. Mas a dupla ganha um reforço quando une-se às buscas o misterioso Ubiratan (velho morador de um asilo que havia sido vítima das torturas e da repressão do governo de Getúlio Vargas).  Com a sua entrada, a história ganha um novo ritmo, mostrando que o que parecia ser um crime sem maior importância liga-se a uma enorme rede de falcatruas, corrupção e impunidade – o que é reafirmado pelo aviso de Ubiratan: “Nada neste país é o que parece”.

Arquitetada de maneira engenhosa, a obra do jornalista-escritor (que, além de repórter dos jornais da TV Globo, também apresenta o programa Espaço Aberto Literatura, na GNT) consegue aliar uma linguagem simples a um estilo requintado. Seus personagens são tão bem construídos que não é raro pensarmos neles como pessoas de nosso convívio.

Além disso, a exatidão do seu trabalho jornalístico também lhe ajudou a recriar com fidelidade a atmosfera vivida pelo Brasil e pelo mundo no início da década de 1960. A começar pela data escolhida para abrir a trama: 12 de abril de 1961 – mesmo dia em que, a bordo da nave Vostok I, o russo Iuri Gagárin chegou ao espaço.

A corrupção brasileira também foi pincelada durante o andamento da história, ao lado da impunidade e da ineficiência de uma polícia que se esquece de sua função para se sujeitar aos (inescrupulosos) desejos dos detentores do poder. Os resquícios da ditadura de Getúlio Vargas e a divisão ideológica do mundo entre comunistas e capitalistas, tão característica da Guerra Fria, também marcam presença na trama.

Tanto esmero e tamanha competência não passaram despercebidos pela crítica literária. O livro levou o Prêmio Jabuti na Categoria Melhor Romance de 2010 e também foi escolhido como Melhor Livro de Autor Estreante no Prêmio São Paulo de Literatura de 2010.

Ao final da leitura, além de atestar o talento inquestionável de Edney Silvestre, é possível refletir sobre a sujeira e a indecência encravadas em nosso território, no qual infelizmente quem geralmente manda na (in)justiça são os donos do dinheiro e do poder.

SE EU FECHAR OS OLHOS AGORA

Edney Silvestre

Editora Record

2009

301 páginas

Certo dia, o caixeiro-viajante Gregor Samsa acorda de sonhos intranquilos e se descobre metamorfoseado em um inseto gigante. A voz de outrora agora não passa de um ruído incompreensível e o rapaz, que até então sustentava pais e irmã, se vê preso a uma carcaça e fadado ao asco e à repugnância alheia – inclusive dos que lhe são mais queridos.

Essa é a história sobre a qual se ergue o conto A Metamorfose (em alemão, Die Verwandlung), escrito por Franz Kafka em 1912 e publicado pela primeira vez três anos depois. Confesso que, durante a leitura do fino exemplar adquirido no sebo, o incômodo foi grande – e acredito que essa era a real intenção de Kafka.

Incomodar e cutucar. Fazer refletir. Em seu infeliz fado, Samsa ajuda a retratar de forma crítica uma sociedade (tanto a do início do século XX quanto a atual) em que a possibilidade de trabalhar e assim gerar lucros é a mais importante (e talvez a única) função das pessoas no mundo – e a quem não mais participa do jogo, desse modo, cabe a exclusão e o abandono a que foi sentenciado o protagonista.

Indo mais longe, A Metamorfose também encarna a dificuldade da humanidade em aceitar o novo, o medo diante do desconhecido e a intolerância às mudanças. Se Samsa passou a guardar um exterior animalesco, suas emoções continuaram intocáveis. Para as pessoas ao seu redor, entretanto, a desprezível condição exterior do personagem triunfou sobre a interior; e o respeito e afeto que tinham por ele foram desaparecendo pouco a pouco, até sumir de vez.

Ao término da leitura, a torturante trajetória de Samsa continua a inquietar; o mais inquietante, porém, é perceber que, excluindo o caráter fantástico da obra, A Metamorfose é um retrato bastante real da intolerância às inúmeras metamorfoses ao nosso redor. O escritor existencialista alcançou, com essa obra, função que segundo ele deve exercer a literatura: “Um livro tem que ser um machado para o mar congelado dentro de nós”, refletiu Kafka. “A literatura só é digna desse nome quando descongela o sangue de quem lê”.

A METAMORFOSE

Franz Kafka

Editora Brasiliense

Tradução de Modesto Carone

1996

As palavras saídas da boca de ninguém menos que Monteiro Lobato, o pai da Emília, da Narizinho e de toda trupe de O Sítio do Picapau Amarelo, enaltecem a grandeza e a sabedoria escondidas nesses pequenos seres de papel – além do poder transformador que podem operar em cada sociedade. Atrevo-me a chamá-los de seres (e espero, assim, não incomodá-lo, caro leitor) pois, a cada nova obra que saboreio, mais guardo comigo a certeza de que, sim, os livros têm vida.

E é para divagar sobre esses companheiros de jornada (os que vieram e os que hão de vir) que dedico o MARCADOR DE PÁGINAS. Um cantinho virtual onde comprometo-me a compartilhar leituras, com suas dores e delícias, além de oferecer meus pitacos sobre assuntos relacionados ao universo literário e editorial.

Seja bem-vindo, fique à vontade para chegar e se aconchegar, e receba os meus desejos de uma boa leitura!

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